terça-feira, 16 de maio de 2017

Passáro só



Quando eu ouço uma música boa lembro de você; de nós, esqueço de mim. Voo longe, sem tempo a perder, sem pressa de voltar. Quando a música acaba, chego depressa e não te encontro.

Procuro em outras músicas, e sem notas suas, o dia passa, a noite chega, e a saudade vira rotina.
Você é mundo seu, e eu... solo, pouso, galho a galho. O nosso canto, juntos, ecoa.

Perdi meu canto, no meu canto, canto e espero, voo e canto. Asas que não te acham, canto que não chega – pássaro só.

E as músicas boas tocam todo dia. Ouço e voo, voo e volto.

.

sábado, 13 de maio de 2017



"Estamos todos presos do lado de fora de um abraço", berra o gazeteiro, ignorado.
A manchete distraída passeia triste pelo calçadão.

.

terça-feira, 9 de maio de 2017

A Lua, cina.



A Lua cheia é uma lanterna oferecida
aos casais apaixonados - luz de encontro aos dispostos, fim do túnel.


.

sábado, 6 de maio de 2017

Reguenos


O Céu chora a Terra que tá
De alegria e de pesar.
O nome é Chuva.

.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Chuvas juntos


Quando chove lembro do meu avô. Ainda mais quando chove durante a noite e adentra a madrugada. Desde a garoa mais fina ao temporal de raios, ventos e folhas caídas, o que vem com a chuva é alegria. Afago.

Em frente a minha janela, ao abrir o portão, encaro avenida e árvores, muitas delas rodeiam uma Escola e permeiam a praça ao lado. Um pequeno parque e um reservatório de água também bastante arborizados completam o cenário - um quarteirão verde em frente a casa; morada de pássaros escandalosos ao amanhecer, silenciados pelos carros e ônibus durante todo o dia e início da noite.
Quando chove e venta, as árvores bailam, o som dos galhos a balançar domina o silêncio, cortado em certos momentos, como sempre, por carros e motos passando.

Toda e qualquer chuva ao tocar as folhas; o vento - com raios ou não - e rodas em contato com a água formam a trilha que gosto de ouvir quando estou em casa, tanto para dormir, pensar, ou simplesmente relaxar. As bacias e baldes enchendo, abastecidas pela calha, o estalar das telhas sob os pingos contribuem em sinfonia.

Em família, acostumamos a nos aprontar para recebê-la e contemplá-la. Eu, minha mãe e meu avô somos conectados por um amor incomum: a precipitação. Deito e admiro o balançar das cortinas brancas e finas do quarto, entre a janela aberta, criando uma luz natural que não domina todo o quarto. Ao meu lado, em sua cama, pronto para um cochilo, ou voltando dele, meu avô acompanha o bailar das cortinas e propõe um diálogo sobre as próximas previsões do tempo, lembranças antigas e contos recentes do cotidiano. Para ele, mais do que tudo, admirar a chuva é uma tradição. Celebração. O descansar durante a chuva é um prêmio. Sinal de trabalho por vir, plantio. Vida! O velho sábio sussurra "benza Deus" e volta aos seus sonhos, aonde semeia a terra, cuida do galinheiro e do gado, limpa a plantação e aguarda a colheita. Às vezes colhe no mesmo sonho.

Enquanto dorme, sua vida no campo continua.

Acorda ancião, cansado na cidade, em um pequeno quarto, ouvindo o fim da chuva. Rotina: banheiro, um café com leite, sopa ou um leve lanchinho, a sala, pouco assunto. A TV não deslumbra nem agrada mais como outrora; antes distração, hoje, um tédio! Pouca coisa atrai interesse em frente a poltrona - mundo novo, língua nova - 101 anos luz distanciam o dialeto contemporâneo da mídia ao da prosa boa. Eu, testemunha de tudo, busco origens já visitadas, pequenos diálogos e interações. Trago-o para dentro, cheio de carinho e ternura. Ouço, aprendo e retribuo o pouco que sei.
Nossa parceria vem de longa data. Quase quinze anos da minha existência, divididos em períodos, da infância, pós-adolescência até a fase adulta.

Meu amigo, meu professor e aluno. "Avohai!"

Quando não chove, lembro, claro! Vive em mim!

Mas quando a chuva vem me alegro e agradeço, pois sei que de onde estiver se alegra também - Dádiva! Alegria! Ouço-o e vejo sua luz em festa.
É como uma visita: Nosso momento!

Olho pela janela, sorrio, fecho os olhos, sinto o vento e chovo de saudades.


Histórias com meu avô


.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Estrada

Saudade é só o que está no retrovisor
Mais reflexos quanto mais em frente vou.

.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Às escuras


A falta de sono faz do teto Quadro Negro.
É como aula. Surgem questões.

Forçam memórias, novas ideias, planos.
Resoluções.

Ás vezes a dor da dúvida, vez ou outra coragem de revoluções.

Quando os olhos cessam, a luz pelas frestas se encarrega de apagar as lições.

.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Dormindo pra Segunda


Às vezes você atrasa o sono para sonhar acordado
o que dormindo não teria lembrado.
Meio sem querer, não planejado.

Deita de um jeito e acorda ao contrário - a cama é a mesma,
o dia, imaginado.

.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Outono frio


Outono frio.
Na direita passa a moto.
O farol fecha.
O vidro fecha.

Medo é clima.

.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Intenso


O inverno entra pela janela, pena que não é ela. Eu e meus cobertores sentimos sua falta – não damos conta.

Desço pela escada, vou até o conhaque, encho o copo e me encolho todo. A poltrona me abraça. Pena que não é o calor dela.

O vento assovia, as árvores balançam, o gelo está no ar, dentro e fora da casa; dentro e fora de mim.

Um livro, de luvas eu leio. A garrafa me acompanha até a morte, dela. Lentamente vou tirando todo o seu calor. Pena que não é o dela.

As madeiras gemem, os vidros embaçam – pena que não por causa dela.

Desenho um coração, o nome dela, solto ar quente pela boca e apago tudo.
Quase sóbrio, subo as escadas, e de manhã, acordo congelado no último degrau.

Nesse frio, preciso de você. Urgente!

... Que falta faz uma lareira!!

.

Loading...